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Registros do II Workshop de Filosofia e Ensino da UFRGS

É com grande alegria que disponibilizamos para download o e-book Epistemologia e Currículo: registros do II Workshop de Filosofia e Ensino da UFRGS.

O Prólogo, que reproduzimos abaixo, foi escrito pela Prof.ª Elisete Tomazzeti (UFSM), a quem agradecemos, bem como a todos os autores e demais envolvidos no processo desta publicação. Esperamos que seja uma leitura frutífera!

Comentários e compartilhamentos são bem-vindos.

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Filosofa e EnsinoEpistemologia e Currículo. Quatro expressões – cada uma em sua especificidade abarca um enorme conjunto de sentidos, ideias, perspectivas. Juntas, compõem um universo de possibilidades de entendimento e de caminhos a serem percorridos.

Filosofia e Epistemologia são temas próprios aos estudantes e pesquisa- dores de Filoso a, que ao longo do tempo são convocados para seminários, congressos e encontros em diferentes regiões e em diferentes instituições de ensino superior no Brasil.

Ensino e Currículo, de longa data, pertencem ao campo da Educação; daqueles que estão implicados com as questões de docência, escola, ensino, aprendizagem, entre outras.

Cada um destes pares temáticos tem habitado, no Brasil, ao menos, lugares e discursos específicos, construindo um dualismo que por vezes parece indissolúvel. Lugar de filósofo, envolvido com Filosofia e Epistemologia, e lugar de professor de filosofia, ou talvez de filósofo da educação e do ensino, envolvido com Ensino e Currículo.

Dois campos teóricos importantes, que nesta obra, organizada por Gisele Secco, foram chamados ao diálogo, para lançar luzes sobre possibilidades interdisciplinares, no âmbito das aulas de Filosofia, na escola básica.

Este livro é resultado de um admirável esforço que Gisele vem fazendo, desde algum tempo, de reunir professores pesquisadores de Lógica, Epistemologia e Ensino de Filosofia em Workshops, na Universidade Federal do Rio Grande dos Sul, no Campus do Vale, nos dias frios do inverno gaúcho. Desta forma, abre um valioso espaço para que novas perspectivas e novas abordagens, de caráter filosófico, possam repercutir significativamente entre os envolvidos com o ensino da filosofia.

É preciso fazer um alerta ao leitor! Não procure, ao ler este livro, um o condutor que, em linha reta, costura e faz aparecer sua intencionalidade. Adentre a densidade dos textos, seu caráter especializado, e, então, aos poucos, perceberá que, no conjunto, há uma composição, feita de pequenos nós, que potencializa problematizações ao leitor. São tentativas de pensar sobre o Interdisciplinar no campo da Filosofia e de seu Ensino. Outros textos, mais explícitos, não menos densos, oferecem reflexões potentes sobre o tema Currículo e Ensino, os quais brotam das experiências de sala de aula, de estudo e pesquisa de seus autores.

Para quem está interessado em pensar filosoficamente sobre Filosofia e seu Ensino, este livro é um convite e, já, um exercício!

Santa Maria, junho de 2016.

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capa

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“Os diálogos platônicos no currículo de filosofia”

Na tarde da terça-feira, dia 21/07/2015, ocorrerá a mesa redonda sobre o lugar dos e as possibilidades didáticas envolvendo os diálogos platônicos no currículo de filosofia.

As palestras serão realizadas por Daniel Simão Nascimento (UFPel) e Renato Matoso Brandão (UFRJ), com mediação da professora Priscilla Tesch Spinelli (UFRGS), que também é uma das organizadoras do II WFE.

Seguem os resumos:

O papel ativo dos interlocutores na dialética socrática

Renato Matoso Brandão

Como sabemos, o método de investigação filosófica conhecido como dialética é representado  de diferentes maneiras na obra platônica. Contudo, certos pressupostos fundamentais permanecem inalterados a despeito desta multiplicidade de formulações, constituindo, portanto, traços fundamentais do fazer filosófico platônico. Um destes traços fundamentais é a necessidade da investigação filosófica ocorrer por meio do diálogo entre, pelo menos, dois indivíduos. Minha apresentação será centrada nos primeiros diálogos de Platão e tentará demonstrar como os interlocutores de Sócrates, geralmente entendidos como meros proponentes de teses a serem refutadas, possuem um papel ativo na condução da argumentação e na produção de resultados positivos. Sobretudo, pretendo demonstrar como Sócrates faz uso dos argumentos de seus interlocutores para expor seu próprio ponto de vista. E, além disso, apresenta suas teses acerca da existência das Formas apenas em função da capacidade de compreensão destes interlocutores. Acredito que minha leitura é capaz de lançar luz sobre interessantes problemas acerca da interpretação da obra platônica, da exposição progressiva da Teoria das Ideias nos diálogos e, por fim, do método didático adotado pelo Sócrates dos primeiros diálogos de Platão.

Adreasstraße, Berlim.

Adreasstraße, Berlim. Foto de Daniel Nascimento.

Elenchus, crença e defensibilidade

Daniel Simão Nascimento

Ao longo da segunda metade do século XX e do início de nosso século foram produzidos numerosos e importantes estudos acerca do elenchus socrático. Boa parte da discussão que ocupou os comentadores gira em torno da questão acerca dos objetivos do elenchus. Enquanto uns, como Benson, defendem que ele só tem e só pode ter uma função negativa, a saber, apontar inconsistências dentro de um determinado set de crenças do interlocutor, outros, como Vlastos, defendem que o método teria também o objetivo de estabelecer determinadas teses socráticas. Nessa palestra, começarei apresentando o famoso método de Sócrates de forma a ressaltar a importância da noção de defensibilidade de uma crença para tentar explicar de que forma o elenchus permite a Sócrates tanto questionar as crenças de seu interlocutor quanto lhe sugerir alternativas que, do ponto de vista da defensibilidade, são mais atraentes. E no entanto, qualquer leitor dos diálogos sabe que mesmo quando o método é bem sucedido muitas vezes o interlocutor não acata as sugestões do filósofo. Dar o devido valor a este fato nos permite perceber que Platão estava bastante consciente de que existem outros motivos que podem levar um indivíduo sustentar uma crença e que são independentes de sua defensibilidade dentro do conjunto formado pelas demais crenças por ele sustentadas.