Arquivo mensal: junho 2015

“Lógica e interdisciplinaridade: conexões curriculares”

Hoje disponibilizamos os resumos das palestras de Frank Thomas Sautter (UFSM) e Nastassja Saramago Pugliese (USA/UGA), a serem apresentadas na tarde de quinta-feira, dia 23/07/2015. O tema é específicamente vinculado ao currículo da disciplina de Filosofia, em suas conexões com a Língua Portuguesa e a Matemática. A mediação desta mesa redonda será realizada por Gisele Secco (UFRGS).

“Compreensão lógica e compreensão cotidiana”

Frank Thomas Sautter

Quaisquer diferenças entre orações logicamente equivalentes são irrelevantes para a Lógica. Contudo, orações logicamente equivalentes podem exibir diferentes níveis de compreensão. Examinarei diversos casos de orações logicamente equivalentes, porém distintas quanto ao seu nível de compreensão, especialmente aquelas que contêm negação ou quantificação.

Outro recorte

Foto: Gisele Secco

“O método de interpretação natural e o uso dos números inteiros não-negativos como universo de discurso: intersecções entre o ensino de lógica e a matemática elementar”

Nastassja Saramago Pugliese

A partir do método de interpretação natural para construção de contraexemplos a argumentos na lógica de predicados, procurarei mostrar que a opção por um universo de discurso é uma característica que torna o procedimento de análise de estruturas argumentativas propenso à atividade interdisciplinar. Entretanto, salientarei que nem todas as disciplinas são adequadas para cumprir este papel. Enquanto as disciplinas de cunho empírico geram problemas para a eficácia do método, a matemática é não só adequada como também aliada do procedimento de interpretação natural. O uso dos números inteiros não-negativos como universo de discurso gera uma situação de aprendizagem que é benéfica tanto para o ensino da matemática, ao exigir do aluno o raciocínio matemático descritivo e relacional, como para a lógica por facilitar o entendimento das estruturas argumentativas e da noção de argumento inválido.

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Qual epistemologia, qual currículo? – Resumo da conferência de abertura do II WFE

O professor Ronai Pires da Rocha, (UFSM) proferirá a conferência de abertura do II Workshop de Filosofia e Ensino às 15h da tarde de segunda-feira, dia vinte de julho, no Patheon do IFCH.

A conferência será apresentada, e a discussão subsequente mediada, pelo professor Eros Moreira de Carvalho (UFRGS).

Segue o resumo.

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Foto: Gisele Secco

“Nessa conferência quero apontar algumas direções de resposta para a pergunta que escolhi como título, “qual epistemologia, qual currículo?”. Não se trata aqui de oferecer visões panorâmicas dos dois tópicos, mas de mostrar que o desenho de currículo precisa ser feito com a maior consciência epistemológica possível,  sob pena de extravios e confusões. Para ilustrar essa afirmação, descreverei ao menos um extravio e uma confusão. Em segundo lugar procurarei mostrar que essa consciência epistemológica deve ser cultivada, numa relação de boa circularidade, junto aos problemas que nos colocamos no desenho curricular e não antes ou depois. De um lado o curriculista deve considerar as características peculiares do mundo formacional e escolar e de outro ele precisa ter presente os aspectos constitutivos dos grandes campos de conhecimentos, competências e habilidades que são visadas como valiosas no processo formacional.

Foto: Gisele Secco

Foto: Gisele Secco

O planejamento curricular brasileiro sofre de um déficit crônico de reflexão no sentido preciso de ficar na superfície (ou mesmo ao largo) de uma discussão sobre características fundamentais dos conhecimentos e suas aquisições e é nesse aspecto que estudos de epistemologia aplicados ao desenho curricular são relevantes. Um dos argumentos que tentarei desenvolver é que os estudos curriculares, se bem compreendidos, exigem uma epistemologia que vai além dos debates mais tradicionais da área, circunscritos, no mais das vezes, a problemas de fundacionalismo, garantias epistêmicas, contextualismos etc..”

Chamada para apresentação de pôsteres – II WFE

A pedidos, estamos abrindo a possibilidade de que licenciandos e professores de ensino médio enviem propostas de pôster, a serem apresentados numa seção no último dia do evento, 24/07.

Pede-se que seja enviado um breve resumo (entre 150 e 300 palavras) contendo as principais informações sobre o conteúdo do pôster, que deve estar diretamente vinculado ao tema do evento. Isso quer dizer: referir-se ao ensino de filosofia, seja do ponto de vista do relato de experiências didático-filosóficas – interdisciplinares ou não -, seja do ponto de vista de reflexões acerca do currículo de filosofia no ensino médio em suas interconexões epistemológicas.

Os interessados devem enviar o resumo por e-mail para pibidintervale@ufrgs.br até a terça-feira, dia 30 de junho, juntamente com uma caracterização do perfil do proponente no corpo da mensagem.

Demais informações serão fornecidas por mensagem de e-mail.

Sobre o WFE, suas duas edições

A primeira edição do Workshop de Filosofia e Ensino ocorreu na UFRGS em julho de 2014.

O evento foi idealizado tendo em vista a necessidade de que as ações de formação de professores de filosofia fiquem prioritariamente a cargo dos departamentos de Filosofia, participando, assim (ainda que singelamente), de um movimento de progressiva aproximação a questões relativas ao ensino de filosofia por parte da comunidade filosófica nacional.

É claro que o escopo da expressão “comunidade filosófica nacional”, nesse contexto, refere-se a um domínio que contempla tanto as pessoas que durante mais de duas décadas lutaram pelo retorno da filosofia, como disciplina obrigatória, ao currículo escolar médio brasileiro, quando aquelas que compõem o universo da pesquisa (Pós-Graduação) de nossa área.

Uma amostra do referido movimento é a realização da ANPOF Ensino Médio, nos dois últimos encontros da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia; outras são: a realização do FORPROF Filosofia, na UFRGS, a consolidação do Mestrado Profissional em Filosofia, o PROF da Filosofia – que tem como instituição sede a UFPR, e ainda tantas outras, vinculadas aos subprojetos Filosofia do Programa de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) de todo o Brasil.

O tema escolhido para a primeira edição do evento foi o ensino de lógica. Uma sinopse do mesmo encontra-se neste link.

A segunda edição do evento tem como tema “Epistemologia e currículo”.  Ocorre, de acordo com nossa avaliação, que nos eventos sobre ensino de filosofia muito pouco se reflete com maior fôlego acerca dos critérios e problemas epistemológicos do e para o currículo da disciplina de filosofia em nível médio, nem tampouco sobre a função desta disciplina no currículo escolar como um todo.

O ponto específico de relevância acadêmica e didática do evento está no reconhecimento do desenho curricular como uma tarefa de planejamento complexo que deve contar, na sua base, com uma consciência epistemológica. Isso deve ser compreendido e situado no contexto recente de reformulação do Ensino Médio brasileiro, uma discussão em andamento, que tem como um de seus marcos recentes o Parecer CNE/CEB 05/2011, Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Esse documento desdobrou a área de Ciências Naturais e Matemática em duas, ficando assim estabelecida a organização do currículo nas quatro áreas que temos hoje: I. Linguagens (Língua Portuguesa, Língua Materna para populações indígenas, Língua Estrangeira Moderna, Arte e Educação Física.); II. Matemática; III. Ciências da Natureza (Biologia, Física, Química); IV. Ciências Humanas (História, Geografia, Filosofia, Sociologia). Esse desdobramento, pelo fato de não ter sido acompanhado de nenhuma justificativa, é uma das provas mais evidentes da precariedade com que o tema da natureza do conhecimento e os aspectos epistemológicos do currículo e da interdisciplinaridade escolar têm sido tratados entre nós.

A discussão em curso no Brasil sobre o agrupamento dos componentes curriculares em áreas de conhecimento surgiu em 1998, com a Resolução CNE/03. Surgiu ali a proposta de agrupamento em áreas de conhecimento e as   expressões correspondentes a três áreas, a saber: linguagens, códigos e suas tecnologias; ciências da natureza, matemática e suas tecnologias e as ciências humanas e suas tecnologias. Esse vocabulário de três áreas foi mantido nos documentos preparatórios dos PCNs (Parecer 15/98, sobre “Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio) e nos próprios PCNs onde se pode ler que “a organização por três áreas tem como base a reunião daqueles conhecimentos que compartilham objetos de estudo e, portanto, mais facilmente se comunicam, criando condições para que a prática escolar se desenvolva numa perspectiva de interdisciplinaridade”. Sobre isso pode ser consultado o documento Parâmetros Curriculares Nacionais – Ensino Médio, de 2000. No documento preparatório dos PCNs, assinado pela conselheira Guiomar Namo de Mello, lê-se uma justificativa para a presença da Matemática junto às Ciências da Natureza. A conselheira escreve que a razão para isso é “retirar a Matemática do isolamento didático em que tradicionalmente se confina no contexto escolar.” Considerando que onze anos depois a Matemática voltou a ser uma área à parte, seria de esperar que os documentos que promoveram isso nos oferecessem alguma avaliação e justificativa para uma alteração tão relevante. Nenhum outro fato revelaria de forma mais eloquente a deficiência das discussões sobre as relações entre currículo e epistemologia.

Os documentos mais recentes, como o Plano Nacional da Educação, aprovado em 2014 como ponto culminante do conjunto de políticas educacionais de inclusão e de compromisso com metas de qualidade em educação, renovaram as pressões para práticas curriculares de natureza interdisciplinar. É nesse contexto que o desenho curricular comprometido com metas de interdisciplinaridade, no entanto, precisa ter na sua base uma forte consciência epistemológica. A inovação e o bom sucesso do desenho curricular supõem que o planejador tenha claro as características dos domínio da experiência e do conhecimento que serão alvo do currículo, bem como respostas, de tipo epistemológico, para perguntas como: que tipo de unidade podemos supor no currículo? As disciplinas apenas são coleções complexas de conceitos correlacionados? Que tipos de organizações implícitas podemos identificar no currículo e nas disciplinas? Quais são as formas fundamentais de experiência e conhecimento humanos, bem como as relações paralelas entre os conceitos em cada área? As respostas para essas questões implicam discussões sobre as variedades dos conhecimentos humanos, relacionados com formas de experiência e seus desdobramentos curriculares.

Fique atento: nas próximas postagens disponibilizaremos mais informações acerca da programação do evento, procedimentos de inscrição e submissão de trabalhos na modalidade poster.

Por enquanto, guarde a data:

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